Para mostrar um pouco do meu processo criativo, mais especificamente do resultado final do mesmo, deixo-vos o guião da "Alquimia Temporal" tal e qual como o enviei ao desenhista Filipe.Naturalmente que, juntamente com o guião, seguia uma breve mensagem em que o incitava a não seguir demasiado à risca as minhas indicações, que no fundo serviam, sobretudo, para lhe possibilitar um "mergulho" na estória. Aliás, enquanto os desenhos se iam compondo, fomos trocando ideias, resultados de pesquisas e ainda discutindo vinheta a vinheta os efeitos pretendidos. O resultado final foi, pois, fruto de uma colaboração o mais intensa possível (apesar de limitada a cerca de uma semana em part-part-time).
ALQUIMIA TEMPORAL
Imóvel, sem pestanejar, o Gato fita a escuridão do vazio.
Das sombras nascem imagens de locais próximos e longínquos, futuros e passados, torcidos e enrolados numa amálgama imperceptível, quase impenetrável.
O tempo é um enorme novelo de lã. Um cordão, tecido antes dos próprios Deuses, com uma ponta na criação do Universo e a outra perdida no infinito.
Fora deste tempo e deste espaço, algures para além da compreensão, unhas afiadas rasgam o ar e…
… com precisão cirúrgica cortam o cordão temporal, desfiando-o em várias linhas.
Num estado quase de transe, aumentando a cadência do ronronar, o Gato apura os sentidos.
À sua frente encontra-se a entrada de um misterioso labirinto de múltiplos corredores escuros e estreitos, em direção aos quais o gato avança, confiante no caminho que os astros lhe indicaram.
A viagem tem início e as imagens sucedem-se em catadupa, como relâmpagos numa grande tempestade, iluminando, por breves momentos, quatro séculos adiante. Aquele futuro é uma época de extremos. A guerra, o ódio e a intolerância, numa escala de pesadelo, coexistem com fantásticas máquinas de progresso e de comunicação, nascidas do sonho.
As cidades sobem às nuvens e os aventureiros vão muito para lá delas. O território do homem ficou mais pequeno, mas também maior. O Gato volta para trás, já foi longe demais…
No regresso, a escuridão é total e a visão é inútil. O perigo é ser enganado pelos outros sentidos e perder o tempo a que pertence. Perder o tempo… perder… BUM BUM BUM
O tempo a que pertence.
BUM BUM BUM
-Trago uma mensagem urgente para o Senhor desta casa, ilustre médico e astrólogo da Família Real.
-Sou eu, Michel de Nostradamus. (por volta de 1550-1560, teria Nostradamus cerca de 50 anos)
O Estúdio:O estúdio de Nostradamus é uma divisão rectangular de tamanho equivalente a uma sala grande de um apartamento moderno. Tal como acontece habitualmente com estas divisões de trabalho, a desarrumação é muita. O estúdio é iluminado por várias velas.
Perto do centro da sala encontram-se uma grande mesa de madeira e uma cadeira de madeira almofadada. Em cima da mesa estão alguns livros grossamente encadernados, dispostos em 2 ou 3 montes, um candelabro com velas acesas e um astrolábio do sistema solar.
Na zona da mesa mais perto da cadeira, encontram-se várias folhas de papel em cima das quais estão uma pena de escrever e um tinteiro.
A um canto da sala existe um laboratório de alquimia (ver foto), com o lume acesso – para tornar o laboratório mais perceptível podes adicionar uma mesa com alguns frascos de vidro, e balões de vidro, um dos quais cheio de líquido borbulhante e fumegante, e assente num tripé com uma lamparina por baixo.
As outras paredes da sala estão cobertas por estantes com livros. Numa parede qualquer podem existir uns pesados reposteiros ou cortinados.
Sobre o Gato, o “plano da realidade” e o “plano astral”O Gato é preto (penso que é o melhor para a estória, pelo cariz misterioso e místico do gato preto).
Durante toda a estória o gato aparece em duas situações distintas:
-no plano da realidade: o gato está, do princípio ao fim, completamente imóvel, como se em transe, sentado numa pose felina muito digna, quase imperial.
-no plano astral: durante a estória vai acontecer como se o espírito do gato caminhasse pelo tempo. Ao caminhar pelo tempo, e antes disso, perante o novelo de lã temporal o gato movimenta-se sempre com grande elegância felina. No plano astral a pose do gato nunca deve ser estática.
O plano da realidade é colorido.
Todas as vinhetas do plano astral devem ser a preto e branco. As imagens do futuro projectadas no plano astral devem ser numa escala de cinzentos.
Sobre o novelo de lã temporal: temo não ter grandes ideias de como fazer isto. Num filme com orçamento ilimitado para efeitos especiais acho que seria algo como se o cordão de lã reflectisse imagens, como se fosse composto por um televisor esticado, ou por muitos televisores… Talvez lhe consigas dar um aspecto granulado, como uma televisão dessintonizada. Puxa pela imaginação.
(nota sobre as caixas de texto: talvez possas fazer umas caixas de texto diferentes, com um toque de antiguidade, ou letra antiga manuscrita, …) -toda a estória é com caixas de texto, à excepção da última(s) vinheta(s), em que há balões.
1ª prancha/1ª vinheta:
No plano da realidade:
Enquadramento aproximado da face (ou só dos olhos) do gato. Os olhos devem estar semi-cerrados.
Imóvel, sem pestanejar, o Gato fita a escuridão do vazio.
1ª p./2ªv.
No plano da realidade:
Enquadramento geral do estúdio visto mais ou menos na perspectiva do gato (que, portanto, aparece de costas), como se o observador estivesse um metro atrás do gato e um pouco mais alto.
Ao fundo da sala existe um local imerso em escuridão, (mesmo em frente do gato, ou na direção para a qual ele tem a cabeça virada) para onde se adivinha que o gato está a olhar.
Das sombras nascem imagens de locais próximos e longínquos, futuros e passados, torcidos e enrolados numa amálgama imperceptível, quase impenetrável.1ªp./3ªv.
Misto de planos realidade/astral
Exactamente no mesmo ponto de vista (pdv) da vinheta anterior, como se fosse esta vinheta fosse uma cópia daquela.
O gato está a transitar do plano real para o astral.
Assim, o local escuro de que falei anteriormente é agora um espaço totalmente branco, ou algo como um portal para outra dimensão, embora o local ao lado (onde estão objectos/formas que sirvam de referência ao leitor) continue no plano da realidade.
No local que agora é todo branco, astral, vê-se o novelo de lã (cujo tamanho deves fazer como entenderes, embora eu pense que resulta melhor se for bastante maior do que um novelo normal, maior do que o gato)
O Gato continua como na vinheta anterior, imóvel, mas o seu corpo astral já se separou do seu corpo físico e vai a caminhar (a meio caminho) em direcção ao novelo. Não sei se concordarás, mas a minha ideia era desenhar um círculo todo branco à volta do gato astral, ou então, contorná-lo com uma aura toda branca, para indicar que aquele gato que caminha é como um espírito, que pertence ao mesmo plano onde se encontra o novelo. Existem, portanto, dois gatos nesta vinheta, o real e o astral.
O tempo é um enorme novelo de lã. Um cordão, tecido antes dos próprios Deuses, com uma ponta na criação do Universo e a outra perdida no infinito. 1ª p./4ª v.
No plano astral
O fundo da vinheta é completamente branco. O gato é preto. O novelo não sei…
Desenha “unhas afiadas rasgam o ar” , num pdv não muito aproximado, que englobe o gato (totalmente ou quase) e o novelo (totalmente ou quase)… ou de outro pdv que te pareça mais acertado.
Fora deste tempo e deste espaço, algures para além da compreensão, unhas afiadas rasgam o ar e…2ªp./1ªv.
(sugestão: vinheta encostada à esquerda, com cerca de metade da altura da próxima)
No plano astral.
O gato já cortou um pedaço da lã, que está agora a acabar de desfiar (o cordão de lã é feito de vários fios de lã entrelaçados).
Os fios que o gato separou estão mais ou menos estendidos pelo chão, mas de uma forma não aleatória. Estão estendidos de forma ao prolongamento imaginário desses fios formar os “corredores”que se irão ver na próxima vinheta. (Podemos falar sobre isto no msn, se achares necessário).
…com precisão cirúrgica cortam o cordão temporal, desfiando-o em várias linhas.
2ªp./2ªv.
(sugestão: vinheta encostada à direita e ao alto, bem grande para dar um toque de cor a esta prancha, senão fica toda a p&b).
No plano da realidade.
O gato continua imóvel, sentado exactamente no mesmo local onde estava antes.
O pdv é o que tu quiseres, mas é importante fazer o leitor notar que o gato está a abrir mais os olhos.
Talvez uma pequena onomatopeia para o ronronar???
Num estado quase de transe, aumentando a cadência do ronronar, o Gato apura os sentidos.
2ªp./3ªv.
(sugestão: vinheta colocada por debaixo da 1ª, encostada à esquerda, com cerca de metade da altura da 2ª).
No plano astral.
O plano astral divide-se agora em duas cores, e em dois locais. O local onde o gato está continua a ser totalmente branco, mas à sua frente tudo é preto. No preto encontra-se um labirinto (de contornos cinzentos??? Ou brancos???) disposto na mesma configuração dos fios de lã que ainda estão à frente do gato.
Sugiro um pdv mais ou menos alto, sem que, no entanto, seja visível uma grande extensão do labirinto, só mesmo os contornos iniciais..
O gato está a iniciar o movimento de andar para a frente.
À sua frente encontra-se a entrada de um misterioso labirinto de múltiplos corredores escuros e estreitos, em direção aos quais o gato avança, confiante no caminho que os astros lhe indicaram.
De um misterioso túnel labiríntico de corredores …2ªp./4ªv.
(sugestão: Vinheta ao de uma ponta à outra da prancha, no sentido horizontal, e com pouca altura, tipo película de cinema – sem o ser, claro).
No plano astral.
.A ideia é como se o gato estivesse a andar num pequeno túnel (que estamos a ver de lado), na parede do qual são projectadas imagens do futuro. O gato, de perfil e numa escala relativamente pequena aparece 3 vezes na vinheta (ou melhor, a silhueta do gato), caminhando (da esquerda para a direita) sempre em direcção ao futuro, como se fossem 3 vinhetas seguidas umas às outras, mas transformadas numa só.
As imagens do futuro devem ser em tons de cinzento, (decide se devem ser perfeitamente “focadas” ou algo “desfocadas”, ou com grão, ou numa técnica diferente do resto do desenho), e devem dar a ideia da luminosidade tipo relâmpago de que fala o texto, como se fossem flashes do futuro que se sucedem uns aos outros. Ou como se este túnel estivesse cheio de TV´s a p&b a emitir imagens diferentes..
A cauda do gato é, nesta vinheta, o seu elemento físico mais importante.
Quanto às imagens do futuro, devem ilustrar o seguinte:
Guerra 1914-18; Hitler; Bomba atómica;
A viagem tem início e as imagens sucedem-se em catadupa, como relâmpagos numa grande tempestade, iluminando, por breves momentos, quatro séculos adiante. Aquele futuro é uma época de extremos. A guerra, o ódio e a intolerância, numa escala de pesadelo, coexistem com fantásticas máquinas de progresso e de comunicação, nascidas do sonho.2ªp./5ªv.
(basta uma vinheta bastante pequena, ou podes fazer uma grande, para equilibrar a prancha e dar mais cor).
No plano da realidade.
Durante a noite, um cavaleiro montado a cavalo, galopa velozmente.
Sugiro que mostres só uma parte do cavalo, talvez só as patas do cavalo e o pé do cavaleiro no estribo; (ou então o focinho do cavalo em esforço e as mãos do cavaleiro nas rédeas).
Se quiseres põe chuva, ou lama, ou neve, ou pó…
Esta vinheta não tem texto.
3ªp./1ªv.
(sugestão: Vinheta de estilo semelhante à 2ªp/4ªv., ou seja, horizontal a toda a largura da prancha)
No plano astral.
O Gato continua a passear-se por aquele corredor. As imagens por detrás do gato podem ser a chegada do Homem à Lua e o 11 de Setembro(com uma torre já em chamas e o outro avião a aproximar-se). A silhueta do Gato aparece mais 3 vezes nesta vinheta, mas o Gato mais à direita já está a voltar para trás (logo, da direita para a esquerda).
As cidades sobem às nuvens e os aventureiros vão muito para lá delas. O território do homem ficou mais pequeno, mas também maior. O Gato volta para trás, já foi longe demais…
3ªp./2ªv.
Plano astral
Desenha a silhueta do gato a cinzento, e o resto da vinheta toda a preto, ou algo do género. Na postura do gato nota-se hesitação e cautela. Pode ir a “cheirar” o caminho, e com as orelhas arrebitadas
No regresso, a escuridão é total e a visão é inútil. O perigo é ser enganado pelos outros sentidos e perder o tempo a que pertence. Perder o tempo… perder…
Onomatopeias:
BUM BUM BUM (bater à porta) – depois falamos se é este BUM a correcta.
3ªp./3ªv.
Plano da realidade.
Esta vinheta é a chave da estória.
No estúdio do Nostradamus, no exacto local onde se encontrava o Gato imóvel, e numa posição semelhante áquela em que o Gato se encontrava, está agora um homem nu (o Nostradamus, pois claro). Podes querer usar alguns efeitos para mostrar claramente que o gato se transformou no homem, como pôr uns fumos a sair do corpo do homem; ou se preferires, fazer uma outra vinheta (sem texto) antes desta , semelhante à 1ª de todas, com um close up nos olhos do Nostradamus; ou desenhar a transformação ainda a ocorrer e o homem com alguma característica de gato, tipo as mãos ainda serem patas…
O tempo a que pertence.
3ªp./4ªv.
Plano da realidade
O homem, ainda meio nu, vem a descer uma escadaria, em direcção à porta da sua casa. Ao mesmo tempo está-se a vestir, com algo tipo um roupão ou robe, enfim algo que se cruze e se ate à cintura. O interior da casa é iluminado por candeeiros a óleo ou então o homem tráz na mão um candelabro com velas. O interior de toda a casa, estúdio incluído, paredes e chão, deve ser de madeira ou pedra, como quiseres.
Batem à porta novamente, sendo que agora o som é mais audível, por estar mais perto.
BUM BUM BUM (letras maiores ou mais grossas que as anteriores)
3ªp./5ªv.
Plano da realidade
O Nostradamus abre a porta, e diante dele encontra-se o cavaleiro, ajoelhado no chão (ou todo curvado, em vénia) , erguendo na mão direita, um pergaminho. Sugiro um ponto de vista por cima do ombro do Nostradamus que ainda segura na porta que acabou de abrir (talvez ainda não completamente aberta) para mostrar de frente o Cavaleiro e o cavalo ao fundo, em último plano. Cavaleiro de meados do séc. XVI (vou procurar algumas referências históricas, se tu não tiveres já – que acredito que sim)
-Trago uma mensagem urgente para o Senhor desta casa, ilustre médico e astrólogo da Família Real.
-Sou eu, Michel de Nostradamus.
3ªp./ Vinheta final, ou tabuleta, pergaminho, etc…
Gostava de terminar a estória com estes versos do Nostradamus. O que achas?
Precaução legal contra os críticos despreparados.Que todos aqueles que leiam este verso considerem-no profundamente;
Que os profanos e os ignorantes dele se afastem E longe todos os astrólogos néscios e bárbaros; E talvez aquele que de tudo isso se distancie seja abençoado pelo ritual sagrado
Nostradamus, Centúria VII(nota ao post: é possível que a versão final do texto apresentado na BD tenha sofrido ligeiras alterações de última hora)